• Caesar Moura

2020 TB NÃO FEZ BEM AO "ROCKY"...

Atualizado: Nov 6

Lançado em 1976, “Rocky” transformou Sylvester Stallone, o “garanhão italiano”, num astro. Inimaginável hj eu sei, mas Stallone foi indicado ao Oscar(!) pelo papel. O filme ficou conhecido como um “clássico da superação” ao contar a história do lutador fracassado Rocky Balboa (Stallone) que ganha uma segunda chance nos ringues, chance essa que planeja ser seu canto do cisne, sua despedida. Mas será que nessa primeira década do Capitalismo De Vigilância a nossa percepção sobre Rocky é a mesma? Será possível gostar de Balboa em 2020?



No início do ano, em meio as manifestações contra o racismo na América de Trump, começou-se a se debater sobre Revisionismo Histórico (uma tentativa das gerações modernas de "consertar", "reparar" erros históricos do passado como derrubar estátuas erguidas para ditadores, genocidas, racistas, "cancelar" filmes de pedófilos, homofóbicos, predadores sexuais e etc.) e, nesse movimento, "... E o Vento Levou" (1936) que fala justamente da Guerra Civil americana (que impulsionou o fim da escravidão, ao menos no papel) e a relação entre brancos sulistas e os escravos, teria sofrido ataques e promessas de "cancelamento" pela maneira com que os "negros são retratos no filme". Na verdade a reação veio da indignação causada pela história dos bastidores do Oscar em que Hattie McDaniel (que faz a carismática Mamy, única personagem que Scarlett O'Hara respeita e teme) foi proibida de estar na premiação, mesmo tendo ganhado uma das estatuetas. Também me senti PROFUNDAMENTE indignado (desde que li a respeito 1 década atrás), mas "cancelar" o filme que fala justamente da relação racista entre negros e brancos, desprezar o trabalho de McDaniel (que enfrentou na época crítica pesada de TODA comunidade negra Americana q tb não gostava nada das suspeitas de q Hattie seria lésbica) e não cancelar o Oscar e os homens brancos de meia idade que estão por trás, não me pareceu fazer sentido algum.


Pois bem... Rs


Revendo "Rocky" (que vi pela primeira vez na Globo no início dos anos 1990) percebi estupefato que o Capitalismo de Vigilância inaugurado a partir de 2007 - 2010 ingenuamente tão defendido pelos Millenials me persuadiu de tal maneira que mudou por completo a minha percepção sobre a sociedade e seus produtos culturais: O "Rocky" que revi hoje não é mesmo que vi há cerca de 25 anos.


Se nos 1990 eu achava Rocky um grosseirão de bom coração e merecedor de sua volta por cima; se nos 1990 eu achava a Adrian (Talia Shire fazendo um improvável par romântico com Stallone) um mulher doce e tímida; Se nos 1990 eu achava Paulie um beberrão cheio de boas intenções; Se nos 1990 eu achava o filme uma história sobre superação, meio "Flashdance"(1984), hoje, em 2020, eu acho tudo BEM diferente.


O detestável Paulie (Burt Young) é irmão de Adrian e melhor amigo de Rocky. Mas de "bom coração" (como Rocky o define mesmo depois de vê-lo agredindo a própria irmã que Balboa diz amar) ele não tem nada. Paulie é um alcoólatra egocêntrico, ignorante, de pouca higiene, machista, hipócrita, medíocre e extremamente violento: Ele chega a LITERALMENTE oferece a irmã para o amigo, como se fazia na Idade Média. Em uma das cenas, Paulie chega em casa no dia de “Ação de Graças” levando Rocky com ele. Lá ele, aos gritos, obriga a tímida Adrian a sair com Rocky. No pior primeiro encontro da história de Hollywood, Rocky termina levando Adrian até seu apartamento. Na portaria ela se recusa a entrar. Ela se recusa 4 vezes a entrar. Ele não aceita. Por fim, entre entrar ou ficar largada sozinha na rua, numa vizinhança violenta e tarde da noite, ela entra. Dentro do apartamento Rocky dá tudo a entender que uma vez ela lá dentro, só sairia depois de dar pra ele. Ela querendo ou não. Um estupro. E é exatamente o que acontece. Quando Adrian percebe que está numa armadilha, pede para ir embora. Pede 3 vezes, visivelmente acuada e ameaçada. E mais uma vez seu "não" é completamente ignorado por Rocky. Por fim Balboa a ENCURRALA contra a parede e diz que “você não precisa beijar de volta, mais EU vou beijar você”. Assustada ela cede. E esse é o começo da "grande história de amor" do filme.


Acha que acabou aí?


Numa cena seguinte o mesmo Paulie, se corroendo de inveja do amigo Rocky, chega em casa bêbado (a cena começa em tom de "comédia", com Paulie tropeçando nas coisas e coisa e tal) e termina com o mesmo Paulie em cólera, com um taco de baseball na mão ameaçando bater na irmã por ela “não ser mais virgem”, por estar “estragada”. O "herói" Balboa assiste a tudo sem mover um músculo.


O filme deveria se chamar “Adrian e o Boxeador”, um drama sobre violência doméstica e o lugar oprimido que a mulher ocupava nos anos 1970 e não sobre um cara passando por uma crise de meia-idade e que decide provar que é picudo "lutando uma última vez". Rocky é egocêntrico, truculento, autoritário e machista.

Argh!


Estariam todos os meus filmes preferidos comprometidos para sempre?


#rocky #rockyolutador #filme #filosofia #movies #movie #filmes #cultura


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Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

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Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

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Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

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