• Caesar Moura

A COMÉDIA CARIOCA TB ESTÁ MORTA?

Para os mais conservadores parecerá exagero, discurso apaixonado do momento, mas para apreciadores da Comédia a morte do performer Paulo Gustavo traz sim um questionamento bastante inquietante para a cena artística contemporânea brasileira: Onde vai parar a comédia nacional?


A Comédia Grega (que alternava crítica familiar e crítica política), um dos 3 principais estilos do Teatro Grego Clássico, passando por Molière (que priorizava a crítica social) chegando até ali a feita na primeira década do século XXI (que mesclava a crítica social com metalinguagem crítica, ou seja, se satirizava também os próprios clichês da linguagem, da comédia, ex: Tv Pirata) deu lugar ao que eu chamo em papo com colegas de "Comédia do Amador" e é nesse contexto, junto com o surgimento e popularização de um tal de YouTube (até 2014 uma das mais socialistas ferramentas online, dando voz, de maneira igual, a qualquer manifestação humana: artística ou não, profissional ou amadora) e os primeiros milhões de vídeos (que imporiam uma segunda onda estilística a partir de 2015/2016, a "Comédia Publicitária"), que surge Paulo Gustavo (1978-2021).


FOTO: SAEEDE KARIMI



O performer alcançou o estrelato nacional com a peça - e depois filme com 2 sequências de sucesso - "Minha Mãe é uma Peça", texto escrito por ele mesmo e onde dizia representar a própria mãe. O tom escolhido foi o da comédia drag, um tipo de sátira debochada e exagerada MUITO popular na cena underground (sim, ainda existia o underground) gay carioca e cuja uma de suas maiores representantes foi a Drag conhecida por Rose Bombom. O tom de voz elevado, uma articulação fluída e despreocupada com o entendimento e uma certa crítica social (ao colocar na boca de personagens de moral um tanto duvidosa o discurso do público branco dominante, ou seja, fazer rir com um texto racista, xenofóbico, machista e homofóbico revestido sob o manto da crítica, da ironia) são alguns dos elementos que rapidamente tomaram conta das rodinhas de amigos e churrascos da família a ponto de, hoje, quase 15 anos depois, MUITOS esquecerem a origem desse estilo de humor achando de nasceu ali, naquele lugar, mas não: Nasceu na Comunidade Gay.


Se vc por curiosidade pesquisar por vídeos amadores de humor nacional de 2011 por exemplo, verá um moooooonte de "Paulos Gustavo": O estilo da "Comédia Amadora" (que vendia a idéia de improvisação como contraponto a técnica) foi uma febre que tem seguidores até hoje (Portugal AMA!). E sempre terá. Mas eis que, como dito lá em cima, foi justamente essa onda estilística que deu origem para o que vemos agora: A "Comédia Publicitária", do Meme.


Esse tipo de comédia é assim chamada por mim porque a formatação dela é idêntica a de peças publicitárias para outdoor do final do século XX: No máximo 13 palavras que sejam possíveis de serem lidas e apreendidas rapidamente pelo cérebro de humanos que passem em veículos em movimento, em outras palavras, a comédia hoje precisa ser resumida, compacta, objetiva, de facílima absorção e apreensão para dedos humanos que correm cada vez mais rápidos pela touchscreen do smartphone. Qualquer semelhança com os Memes e videos de 15 segundos do Tik Tok NÃO é mera coincidência.


Paulo Gustavo morre e com ele se vai MUITO de um estilo, de um jeito de fazer comédia. Em tempos onde a galera do Porta dos Fundos parece mais interessada em promover cursos sobre "Como ser um humorista viralizado na Internet" (como se não se precisasse de um investimento inicial q pobre nenhum tem), e com Tatá Werneck mãe e apresentadora, parece nos restar fragmentos de humor.


Por isso hj, mais q ontem, me pergunto:


Onde vai parar a comédia carioca?



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