• Caesar Moura

FAMÍLIA 'MODERNA'?

Calma! Como você eu tb sou mais um dos milhões de espectadores que AMAM Phil (o premiadíssimo Ty Burrell), Cam (o INSUPERÁVEL e INCRÍVEL Eric Stonestreet) no papel da vida dele) e todo o elenco da série “Modern Family” (2009 - 2020, ABC/Fox Life). Mas olhando agora a série - que chega na sua última temporada - em retrospectiva, podemos mesmo dizer que nossa amada família era mesmo assim... moderna?


A série que estreou em 2009 (em meio ao boom na tv americana e européia do gênero “mockumentary”, algo como “documentário de mentirinha” como o MEGA sucesso “The Office” e a simpática “Parks And Recreation”, todas da mesma época) chega ao fim esse ano, faturou vários Emmys e é até hoje quase uma unanimidade entre os telespectadores: Ainda assim, nem sempre a série acertou. E seus erros, em tempos de militância e vigilância, talvez tenhamos sido bonzinhos demais.


“Modern Family” é centrada na vida de 3 núcleos familiares de gerações diferentes e seus pequenos dramas, claro, tudo com muuuuuuuito humor (ao menos até a terceira temporada, o que não significa q vc não vá rir nas outras 8 temporadas) que são parentes entre si: Mas afinal de contas o que tem de moderno nessa trama? Para a família conservadora americana, algumas coisas: O casamento interracial do Republicano (ultra conservador) Jay (o veterano Ed O'Neil) com a colombiana americanizada Glória (outra no papel da sua vida, Sofia Vergara) e um casal gay que se “apropria” dos valores heteros (casando e criando uma filha) na busca por aceitação. Isso seria o suficiente para justificar o título da série? Não.


Já no primeiro episódio Jay humilha Glória insinuando que latinos para ele, existem exclusivamente para limpar banheiro ou cuidar de jardim. Isso se repete outras vezes durante várias temporadas. Aliás, a insegurança do alfa maduro (que morre de medo de envelhecer, do “pau não subir mais”) é afagada o tempo todo com Jay lembrando a quem quiser ouvir que não existe "dinheiro da Glória", mas apenas "dinheiro do Jay". Quando Glória organiza na segunda temporada uma viagem de aniversário para Jay no Hawaii (levando todos juntos com eles na aventura) Jay chega a dizer (depois de insinuar VÁRIAS vezes anteriores) literalmente: “Mas de onde é que vocês acham que Glória tira o seu dinheiro?”. Viver com Jay (que vez ou outra nos enche de sorrisos e lágrimas, como nos episódios onde ele fragiliza, se "desconstrói") pode não ser assim tão divertido como a série faz parecer ser. Sem falar que, qual tipo de mensagem estamos mandando para mulheres jovens e bonitas? Que em pleno 2020 AINDA se acredita que o melhor futuro para elas é o casamento baseado na renda?! Isso é literalmente medieval.



A maneira como Jay trata os latinos ao longo das temporadas não evolui expressivamente. Mesmo brincando de “Inocente”(da tradição colombiana, tipo “1 de abril” da gente aqui no Brasil) ou soltando fogos de artifício no natal ou recebendo em sua casa o ex marido de Glória, os roteiristas e produtores parecem mais afinados com valores republicanos do que democráticos: Jay continua sem fazer questão de lembrar o nome de seus funcionários; A mãe de Glória surge como uma mafiosa (e armada); A própria Glória por diversas vezes se vê em situações criminosas do seu passado; Many renega sua descendência em nome de um “certo lifestyle” (algo que só é visto como um "valor" no capitalismo americano), os parentes de Glória são sempre pintados como alcoólatras ou mulheres de saúde mental prejudicada (como a irmã de Glória que se mostra capaz de qualquer coisa pra ter a vida que Glória literalmente roubou dela). Isso sem falar em Barkley (a estátua de um cachorro em tamanho humano, vestindo smoking). Jay diz em um determinado episódio: “Ele é um cachorro e um mordomo, como não amá-lo?”. A piada a princípio inocente pode esconder mais um ataque a comunidade latina, afinal Barkley é marrom (Brown e não White como o Snoop) e servil, tal qual muitas vezes Jay insinuou ver os latinos.


E precisamos sim falar de um dos episódios das últimas temporadas onde Cam (gay assumidamente de valores conservadores) enfrenta com Jay (sempre ele!Rs) o time de adolescentes q reclama do tratamento machista, sexista e homofóbico q recebe do treinador e que, na cena final, termina bebendo uma garrafa de leite inteira sob os gritos de Cam, dando a entender que os valores conservadores e criminosos da Supremacia Branca americana tinham vencido e literalmente estava descendo garganta abaixo dos jovens jogadores.


Creep.

Glória parece ter divertido MUITO os americanos. Mas como não? Glória é uma versão latina da persona pública que se criou de Marilyn Monroe: Linda, mas de inteligência limitada (por isso inofensiva e se inofensiva), amável. Tentam fazer de Sofia Vergara uma “cozinheira de mão cheia” (que só faz molho de tomate, sopa de tomate, chouriço e empanadas!), mas não rolou. Mãe de uma criança então (Jay e Glória lá pelas tantas tem um filho juntos), nem pensar. Sofia é o tipo de atriz que se arruma em cena (mais preocupada em parecer bonita do que em atuar). Ninguém acreditou que ela pudesse ser maternal e empoderada. O que é uma pena! Na América de Trump ninguém precisava de mais um show dizendo que mulheres latinas são “sensuais e só”. Teria sido mais moderno fazê-la empoderada. Nesse sentido, sou mais a católica da Jane, the virgin.


Phil é um fofo! Um dos personagens mais carismáticos da série, empatando com o hilário Cam. E surpreendentemente é Phil (aquele personagem do “homem que é um eterno meninão”) seja o único a crescer, a se modernizar na série. Ele protagoniza (e rouba a cena) nos momentos mais “sérios” da série como quando descobre que Haley não é mais virgem ou quando ela revela estar grávida. Ficava claro que o personagem amadurecia bem diante dos nossos olhos. Phil, o único que teria uma desculpa perfeita para permanecer sempre o mesmo, é o que evoluí. Já Claire, mulher de caráter duvidoso (por diversas vezes Claire abre mão da ética e da moral para vencer em competições dentro de todo tipo de relação que ela tem. Ela compete com a filha, com o marido, com o pai, a madrastra…), faz o inverso: Mesmo aceitando a gravidez precoce da filha (que repete seus passos, diga-se de passagem), em uma cena ela assume pro pai estar sendo “moderninha” em aceitar a gravidez da filha por fora, pq por dentro se sente como seu pai se sentiu. Se foi assim, então ela falhou na sua evolução.


O conservatorismo aparece com força também nos filhos de Phil e Claire. Haley, bonita e fútil, acaba grávida de gêmeos e casando com um homem igual ao pai (mais clichê impossível! E clichê a gente já vê na vida. Na arte a gente quer a surpresa); Alex é inteligente, o q parece ser um crime na série "moderna" já que parece sempre atormentada pela solidão; Luke (um FOFO absoluto nas 3 primeiras temporadas e depois... Mmm), vira um machistazinho feio e com zero carisma.


E por fim temos Mitchell e Cam, um dos casais gays mais queridos da tv contemporânea Mas de moderno, só o fato da série acompanhar a liberação do casamento gay nos EUA e a adoção de Lily. De resto, o casal se comporta como qualquer casal hétero de sitcom. Se não fosse pelo BELÍSSIMO trabalho dos atores (que aproveitaram cada brecha no roteiro para expressar homoafetividade em cena já que os personagens eram casados e pais) até os poucos abraços e estalinhos entre os dois passariam batidos de tão inexpressivos. O clichê do gay fanático por musicais antigos, desvairados por produtos de marca, riqueza e beleza está lá. Cam e Mitchell chegam a esquecer a filha porque faziam um dueto (quando acontece com Phil e Claire é pq eles estavam brigados, de cabeça quente. Sentiu a diferença?). Tem algo que surge a partir da sexta temporada: Os dois começam a parecer mais um casal de amigos que dividem o aluguel que um casal que cria uma filha juntos.


De legal e moderno mesmo, só a escolha dos atores. Escolher atores que representam a seu modo minorias (o ruivo baixinho, o gordo) ao invés de atores saradinhos fez um bem danado a comunidade. Sem falar q nenhum dos dois atores optou por uma interpretação de masculinidade tóxica (um é machinho e o outro é pintosa, por exemplo), os dois dão pinta.


Amarei pra sempre "Modern Family", mesmo sabendo que ela não é assim tão moderna. Mas afinal amor é isso não?






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Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

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Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

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Content: Copyright © 2020 Caesar Moura, its suppliers or licensors. All rights reserved. Todos os direitos reservados.

Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

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