• Caesar Moura

FEMINISTA OU MAQUINEÍSTA?

***SE VC É SENSÍVEL A SPOILERS, ESSA LEITURA NÃO É INDICADA***



Também fui um dos milhões dos arrebatados com o piloto de "The Handmaid's Tale" (Hulu, 2017). Na minha opinião um dos melhores pilotos dos últimos anos (o de "How To Get Away With Murder" é outro que me veio a cabeça enquanto escrevo). Impossível não entender o que estava acontecendo, ficar estarrecido com a distopia apresentada (e com as tantas semelhanças com a realidade atual), ficar curioso sobre as histórias e se arrepiar com a cena final, com Elisabeth Moss no papel da sua vida e cheia de fome e fúria no olhar!


Massssss eis que reside aí um dos problemas da série inspirada no romance de Margaret Atwood publicado pela primeira vez em 1985. Inicialmente focada num discurso feminista poderoso, confrontando o patriarcado até quando mostra menstruação na calcinha (ainda um tabu para homens cis), a série teve uma primeira temporada quase impecável. Mas teriam as temporadas seguintes mantido ou elevado tais qualidades?



"The Handmaid's Tale" ou "O Conto da Aia" como ficou conhecido por nós no Brasil conta a história de June (Elisabeth Moss q já tinha dito a que veio em "MadMen") que vive num futuro distópico onde as mulheres perderam oficialmente todos os direitos humanos. Transformada em Aia (tratadas muito pior que garanhões reprodutores, "coisificadas") ela primeiro luta para reencontrar a filha, depois para libertar as filhas (ela tem outra filha) e por fim para destruir o Sistema. Durante toda repercussão da primeira temporada (até agora, de longe, a melhor) cada rebelião da personagem foi visto pela opinião pública (hoje não temos mais espectadores ou telespectadores, mas "influenciadores") como um ato feminista de empoderamento. Mas será que estamos certos?


Só na primeira temporada June passa por assédio moral constante, estupros semanais, quando não, diários, tortura física e mental, sadismo, perversão dos costumes, enfim, coisas que deixariam até Marquês de Sade chocado.Tudo embalado com muita música dos anos 1980, takes aéreos (quando vc vê a cena de cima, como se estivesse flutuando sobre a cena) e câmera lenta. E muito, mas muuuuuuuito extreme close-up (quando a câmera fecha bem próximo do seu rosto) de Elisabeth Moss. Mas muuuito. Muuuuito. Um saco.


O que esperar então das temporadas seguintes? Muuuuuuitos extremes close-ups da Moss (tornando a narrativa extremamente previsível e quando isso acontece nem vem com papo de "linguagem", "estilo", é só preguiça mesmo), um tom litúrgico pra tudo (CADA movimento de June - até o de pegar um copo de água - é filmado como se fosse o gesto de Jesus Cristo em seus dias finais) e uma protagonista que sofre de Síndrome de Estocolmo (quando a vítima acreditar estar apaixonada pelo opressor, acredita que o cárcere é sinal de afeto, amor, cuidado e não violência). June chega tantas vezes perto de fugir do mais absoluto terror que cada nova negativa dela em escapar de fato faz menos sentido pra quem assiste, a não ser pelo viés da Síndrome: June se apaixonou pelos seus carcereiros e parece ter encontrado seu lugar no mundo na mais completa violência.


Já na segunda temporada descobrimos que anos se passaram, que Hannah, sua primogênita, já se encontra adotada e com uma nova família, que seu marido nem se empenha tanto assim em reencontra-la, que June tá apaixonada por outro inclusive, que nunca mais tocou no nome de Moira (sua melhor amiga): Então, o que a June quer? Sim, pq se na primeira temporada seu desejo era voltar a viver com seu marido e filha, na segunda entendemos de forma definitiva de que isso seria impossível.


Na terceira temporada entendemos que então o novo desejo de June é confrontar o Sistema. A rebelião se torna sua vida. Até a página 02: Há um claro movimento em direção ao desequilíbrio, a loucura. Então porque manter o núcleo do Canadá (onde estão refugiados o marido e as melhores amigas de June)? Só 3 anos depois o marido decide correr atrás do prejuízo? Moira virou assistente social, okay, e? A filha, Hannah, a gente nem lembra mais como é que ela é.


Vou dizer para você pq esses núcleos persistem:


Porque a maioria rejeita a história de uma mulher que não esteja atrelada a um homem ou a um filho. Um pensamento machista. Nesse sentido, sou mais a Ripley da antologia "Alien".


O machismo está presente em outros espaços de "O Conto da Aia": A violência explícita e constante e o olhar estilizado sobre o martírio da mente e do corpo feminino (olha os filmes de terror gore que tanto fizeram sucesso nos anos 1970 e que agora voltam a "moda" com força total). June precisa sempre estar atrelada a idéia da maternidade (o resgate de Hannah) e o amor serviu (eternamente se despedindo de Luke, seu marido, e suspirando por Nick, seu novo amor). É como se June jamais pudesse ser como Che Guevara: Tendo como única paixão a rebelião, a revolução. Não, não. June tem que sofrer por amor, June tem que ser mãe. Mais até: June tem que ser meio louca. E é aí que reside um dos maiores dilemas da série:


Como dizer que trata-se de uma obra feminista se o único caminho apresentado para uma mulher optar pela revolução é pelo viés da loucura? Ao mesmo tempo, como manter-se coerente e fiel aos seus códigos dramatúrgicos contando uma história como a de June sem que no fim de uma existência bombardeada pela tragédia ela não termine de fato com sua saúde mental abalada para sempre?


Como dizer que trata-se de uma obra feminista se os únicos corpos objetificamos na hora de contar a história são os femininos?


Como dizer que trata-se de uma obra feminista se a protagonista se vê eternamente presa a valores do patriarcado como o mito da maternidade ("toda mulher nasceu para ser mãe", "toda mulher ama loucamente ser mãe", etc) e do amor ("uma mulher só existe se estiver atrelada afetivamente a um homem")?


Como dizer que trata-se de uma obra feminista se a homossexualidade - que super se justifica dentro da distopia apresentada - é tratada superficialmente? O feminismo não deveria tratar de TODOS os espectros de sua Comunidade?


Que venha a Quarta Temporada.


Praise be.


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Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

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Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

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Content: Copyright © 2020 Caesar Moura, its suppliers or licensors. All rights reserved. Todos os direitos reservados.

Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

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