• Caesar Moura

MORALIDADE ASSISTENCIALISTA

No post passado falei de como a velocidade do mundo contemporâneo e o estado contemplativo/reflexivo que nos coloca a Quarentena (decorrente da Pandemia causada pelo Coronavírus) nos fez mudar a maneira como lidamos com o passado (usei os filmes como exemplo): Se antes algo demorava quase meio século para ficar "obsoleto", hoje, já lidamos com o passado próximo (até uma década atrás) como algo a ser superado. E a Moralidade Assistencialista tem ajudado nesse processo.


Semana passada um famoso serviço de streaming tirou de seu catálogo o clássico cinematográfico Gone With the Wind... (E o Vento Levou...) como resposta às manifestações mundo a fora ao assassinato filmado de um negro americano (George Floyd) por um policial branco, novo estopim de combate ao racismo na América.


Mas o que “E o Vento Levou…” (1938) tem a ver com um evento de 2020? A disseminação quase Orgânica da idéia/sensação de que banir o filme traria justiça para famosa (triste e revoltante) história dos bastidores da maior premiação do Cinema (isso, o Oscar) que, na ocasião de premiar o primeiro negro na sua História, fez a atriz Hattie MacDaniel (intérprete de Mammy e terrivelmente rejeitada pela própria Comunidade Negra da época por interpretar um escrava) entrar pelos fundos para receber a placa (na época os vencedores em determinadas categorias não ganhava a famosa estatueta, mas uma placa) de Melhor Atriz Coadjuvante. O prédio onde a Cerimônia aconteceu não aceitava negros.


Agora, como contar a história da guerra civil americana - e suas fortes raízes no racismo - sem representar as relações escravocratas da época? Impossível. Mas graças a Moralidade Assistencialista, ao que parece, banir o filme do catálogo é o mesmo(?!) que implementar uma cultura anti-racista na empresa ou rever salários de funcionários negros.



A Moralidade Assistencialista substituí a noção - fabricada! - de Bem e Mal por Certo ou Errado. Ainda utilizando o exemplo acima, seria o mesmo q dizer q “fazer o Bem” hoje é “fazer o Certo” e o Certo é se posicionar publicamente a favor de levantes populares bem-sucedidos (que caem nas graças da Opinião Pública por no máximo 2 semanas quando é substituído por outra “indignação do momento”) mesmo que a ação não reverbere muito além da Esfera do “Atendimento ao Consumidor”, das graças das Redes Sociais. Tirar o filme do catálogo não torna a Empresa numa poderosa agente de combatente ao racismo, mas uma preguiçosa disseminadora da filosofia do Assistencialismo (Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço OU Ninguém é completamente bom ou mau, mas todos sabem o que é Certo ou Errado).


(E quem diz o que é Certo ou Errado?)


Modern Family (Fox, 2009 - 2020), série cômica de estrondoso sucesso comercial nos EUA e que fez sua última temporada esse ano (guarda essa informação...) e tem cenas que hoje soam republicanas, sexistas, cheias de xenofobia e do famoso ufanismo americano. A personagem da mulher bonita e burra já não cola mais; Chamar mulher de mais de 30 anos de "desesperada" pq ela sai com homens mais jovens é bola fora, "humor datado" como dizem os hipsters; E o jovem descendente de Colombianos que faz saudação patriótica diante da bandeira americana é difícil hoje de aturar. E veja bem, como eu disse, não falo de uma série de TV dos anos 1970, falo de uma série que encerrou esse passado(!). A idéia da Moralidade Assistencialista (que luta por minorias e injustiças predominantemente no plano virtual), que quer regulamentar o que é Certo ou Errado, politicamente correto ou não nos contaminou de tal forma que não sabemos como voltar a ser um pouco o que éramos.


Dessa forma, vamos combater o racismo (quebrando estátuas e tirando "filmes racistas" de circulação por alguns meses, mas apenas arranhando a superfície do que REALMENTE importa: A destituição do Homem Branco dos Poderes); Vamos combater a transfobia (abolindo o discurso científico por completo, implementando a Filosofia do Contos de Fadas - Acreditamos no que quer que você diga que é, basta acreditar - e da superficialização - gerando mais confusão que elucidação ao criar inúmeras nomenclaturas que fragmentam a Comunidade Gay); Vamos combater o Sistema de Classes (batendo palmas para o YouTuber que pagar a Faculdade de um favelado (sem jamais discutirmos de fato o Sistema Econômico que mantém essa criminosa hierarquia de classes), de cima do muro.


Substituir os ideais - arbitrários - cristãos da Moralidade baseada no conceito religioso do Bem e do Mal pelos ideais assistencialistas de Certo ou Errado justamente num momento onde a Sociedade se satisfaz com espasmos é - mais um - puta tiro no pé.


Agimos como o namorado que por medo do confronto gerado pelo rompimento direto e definitivo, prefere prolongar a relação fracassada por meses aguardando que o outro tome a iniciativa derradeira do término. Além de nenhum dos lados ganhar com isso, a vida aos poucos vai se transformando numa tremenda perda de tempo.

Que pena!

#filosofia #reflexão #modernidade #post #blog #blogger #produtordeconteudo


 

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Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

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Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

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Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

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