• Caesar Moura

O MAU JAMAIS É BOM

Atualizado: Set 30

Quando a chacina de Columbine (EUA) chocou o mundo em 1999, o então astro do rock Marilyn Manson, foi de uma hora para outra associado ao crime (os rumores de que os assassinos Eric Harris e Alan Klebold seriam fãs do artista - desinformação desmentida tardiamente quando a carreira de Manson já estava irreversivelmente destruída - viralizou numa época em que a informação ainda estava basicamente nas mãos da Imprensa) de maneira que muita, mas MUITA gente na América ainda acha hoje que os caras mataram “influenciados pela música satânica de Manson”.


Na época saía sempre em defesa de Marilyn Manson pq acreditava mesmo que filmes violentos não criam assassinos, livros perturbadores não geram maníacos, muito menos música criava criminosos.


Bem, hoje talvez as coisas fossem um pouco diferentes pra mim. Calma! CLARO que continuaria defendendo o cantor e a liberdade de expressão, mas não refutaria a possibilidade de que, se expostos continuamente a determinadas mensagens, muitos de nós, sugestionáveis, seduzidos pelas Redes Sociais e toda desinformação que circula aos milhões por segundo por lá, somos capazes sim de nos sentirmos empoderados (validados) por esse ou aquele artista, por essa ou aquela ideologia.


Dito isso, como avaliarmos o impacto que séries e filmes que subvertem a visão do mal - até que o mal pareça o bem - para o público adolescente? Deus é corrupto (como na divertdíssima “Family Guy”) e Satã é gente boa (como na série da Netflix “Lúcifer”)? Para aproximarmos essas figuras mitológicas que norteam (mesmo que atendendo por nomes diferentes aqui e ali) Bem e Mal pro ser humano precisamos mesmo reduzi-las a “gente como a gente" (só que com uns podereszinhos a mais)? O que acontece com nosso discernimento social quando naturalizamos selvageria como “apenas mais uma característica humana” ao invés de algo a ser combatido, "domesticado"?


Desde quando é okay ser mau?



Na série que sobrevive - “Lúcifer” (Netflix, 2016-2020) - do voyeurismo e abaixo-assinados de adolescentes (que não deixam o sem graça doTom Ellis em paz), Lúcifer, veja bem, o Capiroto, o Diabo “em pessoa”, o antagonista absoluto de Deus-Todo-Poderoso (o Bem), a representação simbólica máxima do mal, decide tirar férias em Los Angeles (EUA) onde faz a linha meio Dexter “só punindo os malvados”. Mas peraí: Lúcifer não é um Anjo-Vingador a serviço de um Senhor, mas o Anjo-Caído, a mercer do livre-arbítrio, o expulso e excomungado pelos Céus? Pq “punir os malvados”? E outra: Só pq os crimes são feitos por um homem branco e cis e bonito, passam a ser bem feitorias? Então a beleza - e qualquer outro privilégio como classe social e cor da pele - inocenta de todo mal?


Em “As Aventuras de Sabrina” (Netflix, 2017/2020) a filha (Sabrina, claro!) de Satã (Sexy claro...) que tb está destinada a ser sua rainha (Esposa? Pedofilia e Incesto?) se vê dividida entre um humano fracassado e cheio de neuras e seu novo crush bissexual e viciado em suruba (tanto q uma das provas de seu amor por Sabrina é justamente abrir mão de uma noite de ferveção pra ficar com a bruxinha deitadinho na relva na noite de Halloween. Há alguns anos isso seria obrigação...). No meio disso tudo as tias “legais” matam umas as outras, são assumidamente masoquistas e oram pro Diabo diante de uma cruz invertida. O bem é um respiro, um “momento terno de fraqueza” dos protagonistas. Só nesses dois exemplos ("Sabrina" e "Lúcifer") o humano é retratado como naturalmente mal e o mal por sua vez é sedutor, bem-sucedido, coisa só pra vencedores, como essa história de vampiro ser lindo e bilionário.


Nunca na história o humano gostou TANTO de ser humano.


Não chega a surpreender então que hoje nas "séries para adolescentes" os obstáculos não sejam mais o sexismo (ainda que ele persista até hoje) ou as diferenças de classes ou um amor impossível, mas crimes seríssimos (premeditados) como estupro e assassinato tratados sempre como "ritos de passagem para o mundo dos adultos", coisa de americano que insiste em dizer que o que acontece nas escola por lá é "uma preparação necessária para o mundo lá fora". Isso é o mesmo que naturalizar a certeza de que vivemos numa sociedade onde ninguém é normal (mas tão pouco pode ser chamado de louco já que virou politicamente incorreto), todos são criminosos em potencial e em desconstrução e c'est la vie!


Não. Nossa capacidade de indignar-se diante do crime é termômetro de nosso caráter sim. Naturalizar a barbárie não deveria em tempo algum ser algo "normal'.


Mas, lembra da história do Marilyn Manson lá em cima? Vai vendo… (Lá vem ele…Rs)

Quando a série “You” (Netflix, 2018) estreou no serviço de streaming, teve como repercussão uma puxada de orelha discreta do ator protagonista da série (Penn Badgley de “Gossip Girl”) em ninguém mais ninguém menos que uma das grandes apostas do entretenimento atual, a atriz Millie Bobby Brown (estrela de “Stranger Things” e "Enola Holmes") que então com 13-14 anos fez postagem insinuando que ter um stalker (e assassino em série!) como o Badgley "seria o máximo". O ator respondeu de imediato com algo do tipo “Você sabe que ele é um assassino, certo?”. Poderíamos tranquilamente traduzir como “Você sabe o que é Bem e Mal, certo?”


Mas nem todos sabem. Um stalker hoje é facilmente confundido com o príncipe que mata e morre pela princesa da Disney (desde que no fim ela case com ele e os faça felizes para sempre, para SEMPRE) pq ao que parece a possessão é um valor ultra-romântico hoje para os metidos a céticos dos millenials. Há algo de errado nisso não? Ou vamos continuar a não falar sobre Kevin?


Viu como a maneira de abordamos o Mal na Arte acaba influenciando em mudanças de paradigmas sociais importantes como a clara diferença entre Bem e Mal? Na sociedade do Eco, já não seria hora de assumirmos maior responsabilidade sobre a ideologia escondida em nossa mensagem, em nossas histórias? Não prego aqui o retorno absoluto do maquineismo barato, mas de se voltar a assumir a responsabilidade por se tomar um partido:


Luz ou Trevas? Bem ou Mal?


PRECISAMOS parar de confundir "Todo ser humano é feito de luz e trevas, bem e mal" (máxima que eu tb acredito!) com "tem males que vem para bem" ou o atual "Ah, quem nunca?". O mal é mal, ponto. Não podemos humanizar o sentimento só pq como humanos o sentimos. Não somos nós que contemos o mal é o mal que nos contém quando não sabemos o diferenciar do Bem. É como escolher nadar em um rio ao invés de em outro.


Contar histórias como se tudo fosse parte de "um mesmo rio" pode não estar sendo a melhor opção.



  • White Instagram Icon
  • White Facebook Icon
  • White Tumblr Icon
  • White Amazon Icon
  • White Vimeo Icon
  • White YouTube Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

logo-filmfreeway-512.png

Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

Software and Design: Copyright © 2010/2020 CM Group, Inc., its suppliers or licensors. All rights reserved.

Content: Copyright © 2020 Caesar Moura, its suppliers or licensors. All rights reserved. Todos os direitos reservados.

Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

  • Blogger - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • LinkedIn - Black Circle
  • Amazon - Black Circle
  • Vimeo - Black Circle
  • YouTube - Black Circle