• Caesar Moura

O PRESENTE NÃO É MAIS COMO ERA ANTIGAMENTE

Lembro bem da reação da minha mãe ao conhecer meu novo ídolo da adolescência: Madonna. Era 1989, eu ainda comprava vinil da Xuxa (apresentadora brasileira de programa de Tv infantil e famosa nos anos 1980) quando fui hipnotizado por "Like A Prayer" (quarto álbum de estúdio da cantora norte-americana que já era um ícone na ocasião). A rebeldia que Madonna vendia na época caiu feito uma luva na minha entrada para a adolescência como um jovem mestiço, gay, pobre, gordo e resistência quando diante do bullying.


Minha mãe odiava! Rs Via na sexualidade desenfreada de Madonna uma ameaça a seus valores e educação. JAMAIS me proibiu de ouvir, consumir Madonna, mas JAMAIS deu crédito algum à "mulher vulgar e de talento duvidoso", como minha mãe (fã dos Beatles, Elis Regina, Chico Buarque e Djavan) a categorizava.


Apesar de amar e respeitar DEMAIS a minha mãe (minha primeira fonte de conhecimento, literalmente, já que cheguei aos 5 anos como ela chegou, completamente alfabetizado), jurei então que não faria igual, que procuraria me manter sintonizado com o presente, que tentaria abraça-lo, aceita-lo. Claro que se eu soubesse que o futuro seria o K-Pop e Drake, eu teria repensado a promessa (Rs), mas ainda assim cá estou, num esforço titânico para reconhecer o que funciona nesse presente, nesse agora.



Acho que volto aqui dia desses para falar exclusivamente de música, mas nesse processo de me manter no presente, o que tem me chamado a atenção (por causa da quarentena e nosso olhar que muda com ela) o quanto alguns setores culturais beiram perigosamente ao obsoleto. O cinema é um deles.


Quando alguém da minha geração assistia nos anos 1990 aos filmes das décadas de 1940, 1950, de certa forma, mantínhamos um olhar generoso, de interno entendimento de que aquela embocadura, aquele estilo de edição, de interpretação (ainda teatral), os figurinos, tudo representava uma Era, um passado a ser revisitado, por mais que ficcionado, uma interpretação de uma realidade que se foi. Hoje, ao assistir filmes dos anos 1980,1990, me pego impaciente, num tipo de estranhamento, como se os filmes (muitos que fizeram parte de um presente não tão distante) mantivessem um ritmo temporal que não faz mais sentido num presente que apresenta as notícias dos jornais de forma resumida, quase em tópicos que é para não assustar o leitor atual com "muito texto" (chamados hoje pejorativamente de "textão"); quando vídeos de mais de 3 minutos correm o risco de entediar; resumindo: Quando mundo está em outra velocidade.


O absurdo é que essa velocidade que chamei aí em cima de "do mundo", nada tem a ver com ele, mas com a velocidade hoje com que absorvemos quantidades inimagináveis de informação.


Hoje me pego pensando (quando revejo um filme de uma ou duas décadas atrás, no máximo!) como eu tinha paciência para créditos de abertura "longuíssimos" (na época pareciam perfeitos! Rs Era o tempo para comprar pipoca e refrigerante, para aquele xixi de última hora), me pergunto como eu aturava uma narrativa "lenta"(!), uma edição "preguiçosa"(!) ou como os planos eram "sem graça"(!).


Não, não tô renegando "2001", "O Poderoso Chefão" ou "Cidadão Kane", mas estou afirmando que nossa tolerância com o passado mudou, não nos relacionamos mais com ele com nos relacionávamos antes: Estou afirmando que a certa cerimônia e reverência que tínhamos com o passado está praticamente extinta. Queremos tudo ágil e resumido e o que aconteceu há apenas 20 anos parece ter acontecido há 100.  


O presente não é mais como era antigamente.


#filmes #arte #art #movies #filosofia #passado #presente #tempo


 

0 visualização
  • White Instagram Icon
  • White Facebook Icon
  • White Tumblr Icon
  • White Amazon Icon
  • White Vimeo Icon
  • White YouTube Icon
  • White LinkedIn Icon
  • White Twitter Icon

Miguel Falabella

Autor, Ator, Diretor e Roteirista

"Moura é extremamente profissional e um

autor de sucesso na cena do Rio. É um

prazer e uma alegria recomendá-lo"

Lionel Fischer

Critico Teatral

"Caesar escreve personagens

fortes e diálogos excelentes"

logo-filmfreeway-512.png

Ruy Póvoas


"O texto de Caesar é feito como quem

tem os terminais nervosos da alma

expostos na própria pele"

Academia de Letras da Bahia

Software and Design: Copyright © 2010/2020 CM Group, Inc., its suppliers or licensors. All rights reserved.

Content: Copyright © 2020 Caesar Moura, its suppliers or licensors. All rights reserved. Todos os direitos reservados.

Fotos: Lewis, C. Moura. Todos os direitos reservados.

  • Blogger - Black Circle
  • Instagram - Black Circle
  • Twitter - Black Circle
  • LinkedIn - Black Circle
  • Amazon - Black Circle
  • Vimeo - Black Circle
  • YouTube - Black Circle