• Caesar Moura

PORNOGRAFIA ANTI-SEXO: OS CORPOS SÃO MEROS COADJUVANTES

Até o final do século XX onde resistia a idéia do Privado (algo reservado, íntimo, secreto), persistia também o conceito de outras dualidades relacionadas como Amor (nobre, verdadeiro, afetivo) X Sexo (lascivo, pecaminoso, inconsequente); Íntimo (feito com afeto, com "sentimentos elevados") X Pornográfico (extravagante, escandaloso, vergonhoso, revelador e excitante) e etc. Mas depois de uma geração inteira crescer aprendendo a valorizar a exposição nas Redes Sociais a ponto de hoje tudo ser aceito como público, vivemos numa sociedade cuja cultura é a da desvalorização e aniquilação do privado, o privado virou um conceito ultrapassado, careta, conservador, "coisa de gente velha"(ou estranha).


Natural então que nessa mesma sociedade predomine a idéia da exposição como um valor (medido em números de curtidas, visualizações, compartilhamentos...). Um dos setores mais afetados com essa nova ordem mundial, além da fonográfica que só agora começa a entender as novas regras do jogo, foi o Mercado Pornográfico que viu o profissionalismo ser substituídos pelo estilo do amador (que desempregou milhões na indústria).


O fascínio (fosse por razões educacionais, lascivas ou artísticas) pela representação gráfica do ato sexual nos acompanha desde antes mesmo aprendermos a usar palavras. Mas foi só quando os gregos entraram na História que a palavra "pornográfico" apareceu pela primeira vez nos Diários de Uma Cortesã e usado para definir "sexo sem amor". Com o passar dos anos "pornográfico" passou a definir TUDO que fosse sexual, ultrajante, obsceno, degradante. Veja bem, não faz muito tempo e vídeo vazo (as antigas "sex tapes") contendo atos sexuais destruíam casamentos e carreiras: Hoje transformam os participantes em "influenciadores" digitais.


E é aí que o bicho pega. A pornografia tem sido "fonte de educação sexual" para todos os meninos do mundo ocidental há mais de 100 anos. Tudo aquilo que nenhum pai do mundo explica aprendemos com a pornografia. Eu por exemplo, gay assumido, "aprendi" sobre sexo remexendo nas fitas VHS secretas de sexo hétero do meu pai quando eu tinha 14 anos. Rocco Siffredi, Nacho Vidal, Ron Jeremy, Tom Byron, Peter North foram alguns dos atores pornôs com quem fantasiei durante décadas (na vdd até hj! Rs). Rocco Sifredi por exemplo foi um dos primeiros atores da cena mainstream (assim como hoje existe a Dark Web existia o mercado de sexo mais pesado, na época, um mercado tão lucrativo quanto marginal) pornô a naturalizar o cunete masculino (lamber o cu do homem). Pode parecer escandaloso e foi e muito, provando-se também um sucesso absoluto. Existia um público masculino heterossexual GIGANTE que se envergonhava de desejar ter seu cu estimulado pela parceira e com isso ser visto como gay. Quando Rocco - o verdadeiro garanhão italiano, dotado, bonito e másculo - passou a fazer isso em seus filmes a prática deixou de ser "coisa de viado" para ser coisa de "macho dominador". Para os homens héteros foi libertador e para homens gays como eu (mais interessados em pornografia hétero) foi mais libertador ainda (Rs). Mas lembra que comecei o parágrafo dizendo que "é aí que o bicho pega"? O mesmo Rocco quase teve sua carreira destruída ao trazer para cena pop pornô a violência (antes destinadas ao submundo pornográfico) contra a mulher durante o ato sexual que passou a incluir cuspidas, tapas, socos leves, pisadas no rosto, humilhação e orgia no maior clima de estupro coletivo. E da mesma forma que o cunete masculino reverberou, as "novas práticas", apesar dos protestos nos EUA, revelaram-se também um sucesso. Da mesma forma que depois de ver Rocco "liberando o anelzinho" libertou muitos homens e salvou muitos casamentos, os espectadores começaram a copiar o que viam provando que aquela afirmação que se fazia até o fim do século XX, a de que "TV não influencia, faltou foi educação", ser uma mentira: Independente da Educação que recebamos somos absolutamente influenciados pela quantidade de vezes a que somos expostos a uma mesma imagem. Voltando para a pornografia, se Rocco batia e humilhava lindas mulheres que pareciam "felizes e saciadas" nos filmes, os consumidores dos videos fariam o mesmo na vida real: O sexo doméstico mudou para sempre.



FOTO: Rocco Siffredi (Divulgação)



A violência aliada ao fim do conceito de Privado tornou-se um monstro no século XXI quando potencializado pelas Redes Sociais. Não existe uma sequer onde a pornografia não se dê (seja nas timelines ou nas DMs) e, em quase 85% dos casos, envolvendo violência em algum nível. Por exemplo, vc dá Match com um cara no Tinder que diz no perfil ser um "romântico incurável", que "adora mandar flores", mas ao iniciar o papo, antes mesmo de um Bom dia/Boa tarde/Boa noite ele te manda a foto do piru: isso é um nível de violência. No entanto, mesmo que numa breve passada em sites de sexo amador (note, não se usa mais "pornografia amadora", mas "sexo amador" já que no mundo contemporâneo sexo e pornografia são a mesma coisa, tá entendo o tamanho do Beringela? Rs), percebe-se que a violência vai mais além: Mulheres em surubas que mais parecem estupro coletivo onde homens intercalam suas vaginas batendo papo entre si, falando sacanagem entre si, como se o corpo da mulher fosse literalmente um objeto, uma "mulher inflável híper realista"); Casais fazem troca-troca "a pedido dos seguidores"; Casais trepam com o marido olhando para a câmera (o sexo então é com os espectadores, mais uma vez o corpo presente é mero acessório de cena); tapas, socos no Cox, mijo e cuspidas no rosto, na boca; palavras humilhantes, de degradação como se um dos parceiros no ato sexual fosse inferior e ansiasse - não por afeto, atenção ou tesão - por opressão. Nos vídeos amadores gays vemos sexo sem camisinha com moradores de rua, assaltantes de pequeno porte, cenas reais de estupros em presídios, sangramento anal, e claro, tapas, socos no Cox, mijos, cuspidas e etc.


Hora de somar 1+1 (sou péssimo em matemática, não repara! Rs): Se a pornografia ensina há mais de 100 anos aos meninos a como ter relações sexuais e tudo que existia no espectro da pornografia virou "sexo normal", sexo doméstico (onde se vende a idéia de que se pode quase tudo em nome do prazer individual) e é esse sexo que hoje é disponibilizado (aos milhões por minuto) nas Redes e que são eles que andam "educando" seus filhos e dando "novas idéias" para seu marido, onde vamos parar? Que sexo é esse que andamos fazendo? Achar que pornografia e "sexo com amor" são hoje a mesma coisa não é o mesmo que achar que "todo ser humano é especial" (fazendo assim com quem ninguém seja especial no fim das contas)? "Ah, a gente sabe quando é especial, é quando rola química". "Química"? Mas química rola sempre, até - ou principalmente - quando a combinação dos dois - ou mais - "elementos químicos" se mostra um desastre total. Não é porque o sexo foi ruim ou te fez "sentir nada" que signifique que nada de fato tenha acontecido. Aconteceu. Sexo - pornográfico ou com amor - seja em que nível for é ação e toda ação... gera uma reação. Em outras palavras, quando foi que a idéia de que sexo é algo absolutamente isento de consequências?


Que saudade do tempo onde os corpos - e não a lente do smartphone - eram os protagonistas do ato sexual; Que saudade do tempo onde o tesão estava nas formas do corpo, no cheiro, no toque, na sensação particular que aquele corpo provocava fosse por 1 minuto ou uma eternidade, e não na fantasia de quantos seguidores estão me assistindo: Hoje a vagina e o Pau Duro são meros coadjuvantes numa equação que envolve cada vez menos sexo e mais narcisismo.


Que saudade do Privado! Rs


#sexo #amor #pornografia #tesão #afeto #privacidade #privado #público





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