• Caesar Moura

PRECISAMOS FALAR SOBRE ANITTA

Atualizado: 14 de abr.

Apesar de gay, carioca e suburbano (e praticamente “vizinho” da Larissa de Honório) - características que deveriam me fazer automaticamente seu fã absoluto - NÃO sou nenhum entusiasta da Anitta “cantora” (prefiro chama-la inclusive de Performer). Se me acabo de dançar se toca “Shows Das Poderosas”, “Bang” e “Vai Malandra”? CLARO. Gostando vc ou não são pérolas do pop contemporâneo como foram muitas das composições de 1980/1990 do grande Lulu Santos. Mas tb é só. Nenhum outro lançamento de Anitta me pegou, até pq sou de uma geração que não tem nada contra o comercial e TUDO contra o impessoal: Até as músicas mais superficiais precisam ser defendidas com "fruto de uma experiência pessoal", ou...


Andy Warhol provou que é possível produzir arte comercial, mas impessoal, é impossível.


Tudo isso pra dizer que se passo longe de ser um hater da Anitta, aqui vc não lerá um texto de fã, mas de quem sabe, estuda e tem os mesmos sonhos de Anitta.



CADÊ A ASSESSORIA DE PERSONA?

Anitta construiu sua carreira no Brasil baseada exclusivamente na intuição do irmão, dos Orixás e claro, dela mesma. Aos trancos e barrancos veio dando TÃO certo q ela esqueceu (e ninguém de sua Equipe teve coragem de lembrar) que numa empreitada como a de como uma artista brasileira (cuja língua não é inglês e nem espanhol, mas portuguesa, língua na América tida como uma língua exótica e q quase ninguém conhece mesmo com o advento da Internet) conquistar o TOPO da cena musical POP internacional, de que os números de seguidores e plays nos serviços de streaming (que no Brasil fascinam todo mundo e parecem abrir qualquer porta) seriam então tb eficazes nos EUA, quando lá esses dados só seduzem e interessam aos burocratas das empresas (incluindo os anunciantes em potencial), mas ao Mercado, ao público, isso pouco diz, sendo preciso RECOMEÇAR DO ZERO, recriar a persona Anitta mantendo algumas das características da personalidade da Larissa, mas adaptando TODO O RESTO para um mercado americano incrivelmente conservador e mais, cujo conservadorismo tem códigos muito particulares. Quer um exemplo (mesmo que tratando-se de artistas de personas completamente opostas?)


Nos anos 1990 Shakira (q já tinha uma vantagem: ela fala espanhol) imitava o visual de Alanis Morissette e escrevia letras (Maravilhosas!) políticas e engajadas até o remix de um brasileiro (DJ Mansur, um tesao! Rs) fazer a versão dance de “Estoy aqui” bombar na América Latina inteira. Rapidamente começaram a repensar a carreira de Shakira para o mercado americano e anos depois, com o suporte de Gloria Estefan e Emilio Estefan, ela fez a transição mudando seu estilo para aquele mercado e para sempre: Shakira deixa os LONGUÍSSIMOS cabelos negros para trás e fica radicalmente loira; Shakira esquece as calças de couro e t-shirts básicas e passa a usar calças de cós baixíssimo e tops curtíssimos; Mas o MAIS IMPORTANTE: Shakira abandona as letras pessoais (que eu AMO) e a pose de menina rebelde para passar então a ser aquele “furacão latino e sensual” dos palcos mas que na vida é ETERNAMENTE "uma menina doce, comportada e do Bem". Entendeu?


O que Anitta faz? Chega na América como se a América já conhecesse sua trajetória (e caso não, que desse um Google), como se ela fosse “de casa”. Aí erros ABSURDOS como o de achar que o mesmo discurso que polemiza e empodera no Brasil desse certo - e ainda por cima na boca de uma estrangeira, uma “estranha” - na América. Não! Anitta não poderia ter incorrido no erro de achar que sair por aí falando que “ama foder”, “ama cagar”, “ama piroca”, “que dá pra todo mundo” e a Cardi B falar de “xoxota”, de que "esfaqueou o cu com as unhas alongadas" seria recebido pelos americanos da MESMA forma! NUNCA! Até pq, veja a Cardi B, suas letras e performances são inspiradas em sua experiência como Stripper ou EX-Stripper-nova-milionária, mas nas Redes Sociais sua persona é OUTRA, é cômica, atrapalhada, cheia de gafes (que viram memes e MILHÕES de dólares), que humanizam a persona, que tornam a persona aceitável. NINGUÉM SUPORTA A PESSOA 'INDESTRUTÍVEL'. No Brasil, a idéia de que "o que sou na vida, sou em todo lugar, até no palco", essa linha "sou sincera", cola e cola MUITO como Anitta mostrou, mas a América PRECISA acreditar que sabe diferenciar a Anitta da Larissa, de outra forma eles não enxergam onde está a arte (nem no BBB as pessoas são premiadas por "serem elas mesmas"), ou seja, a artista, a persona. A América agora acha que Anitta é Anitta 24 horas e eles não veem nada de excepcional nisso.


1º ERRO: Resistir a reinventar-se, zerar o cronômetro, a radicalizar sua imagem, cometendo o erro que TODO artista brasileiro do top de Anitta comete: Achar que "seu jeitinho único e brasileiro" será o tempero secreto do sucesso. Não...



TER GRAVADORA NÃO É O MAR DE ROSAS QUE VC PENSA

Controlada por ela mesma e seu irmão, sua carreira no Brasil é um SUCESSO incontestável, mas nos EUA (e tb na Europa) assim como um ator/autor não chega a lugar nenhum sem agente, cantores não são levados a sério em grandes mercados sem a figura das odiadas mas indispensáveis Gravadoras. MUITA gente ainda acha que, uma vez fechado com a Gravadora, “todas portas se abrirão pq agora ela - a gravadora - vai pagar por tudo”. Que engano! Artistas como Anitta e suas pretensões precisam ter DINHEIRO para investir junto. E MUITO. Vc acha q a gravadora paga as contas de fim de mês da Anitta enquanto ela tá sem dormir pensando no que fazer mais pra "fazer acontecer"? Claro que não. E vcs acham q a Anitta tem a opção de “ir para um lugar mais baratinho e assim poupar e poder aumentar sua temporada por lá”? CLARO que não. Ela tem que morar o mais próximo “de onde as coisas acontecem”, e todo mundo sabe q esses lugares, em qualquer cidade ou país do mundo, são sempre os mais caros de se morar. Vcs acham MESMO que alguns dos convites para programas bombados não são pagos? Que participação no show da fulana e da beltrana é sempre "no amor", que é de graça? Que os features são feitos em nome da "amizade e admiração" entre os artistas envolvidos? Que os vídeos virais dos influencers promovendo sua música não custam dinheiro? Que a Mariah fazer um post falando de vc sai de graça? Sabe-se Deus e os envolvidos quanto disso TB não é custeado pelo próprio artista! Num cenário desses existe então dois tempos primordiais para o processo: O Tempo do Mercado e o Tempo Orçamentário. Com tudo isso em vista, foi sábio então sobrar até para a empresa para a qual ela trabalha a quase 2 anos e ainda não mostrou resultado? Vc vai entender melhor no próximo tópico...


2º ERRO: Dar demonstrações públicas de inaptidão em lidar com contrariedades (o famoso "Tá vendo? Se deixasse EU fazer...") coisa q mercado NENHUM olha com bons olhos. PRINCIPALMENTE o americano comandado por um patriarcado híper conservador.



ONDE ESTÃO OS HITS?

Tudo começou com "Mí Gusta" primeiro Single lançado na Warner (de quem Cardi B tb é contratada, por isso a parceria). O Single, cantado em espanhol e de melodia pouco marcante, parecia frágil se comparado a chiclete "Whatever Whenever" da Shakira ou a viciante "La Vida Loca" de Ricky Martin, afinal o primeiro Single é determinante. Olha "Dontcha" da Pussycats Dolls ou "Kiss The Girl" da Katy Perry? São primeiros singles q a gente escutava pela primeira vez e pensava na hora "Isso é hit! Já mitou!'. "Mí Gusta" soava, na melhor da hipóteses, um bom Single pro "Lado B" do album.


Aí começou outro buxixo: "Girl From Rio"! Com esse nome, com o sample da imortal "Garota de Ipanema" de Tom Jobim e uma campanha publicitária do caralh*,parecia que o album já iria sair dali 1 mês, que Anitta e sua Equipe já tinham decifrado a América de tão poderosa que foi a Promo e as escolhas para o Single. a expectativa entre os fãs de POP era gigante. Até chegar a música... e o clip. "Girl From Rio" talvez fizesse sentido no terceiro album americano de Anitta, num clima de "tá vendo? A América que um dia amou Tom Jobim, ama Anitta" e tal, MAS como nova tentativa de emplacar "o primeiro single" decepcionou, soou destoante para nós brasileiros (o mashup de estilos NÃO funcionou e no final TODO MUNDO queria música TODA no climinha new-bossa) e confusa para os americanos que ainda a estavam conhecendo. Caso clássico de uma campanha melhor que o produto que promove;


Sem tempo para respirar Anitta lança o maior tiro no pé de sua carreira internacional até agora: "Fake Love". O erro começa com a interpretação equivocada que a equipe envolvida na produção do Single - incluindo a própria Anitta - teve do termo atualmente popular nas composições contemporâneas americanas que é o "fake love" ("amor falso" numa tradução livre). Na América alguém que finge amar alguém é indubitavelmente alguém tóxico, mau caráter, alguém a ser evitado. O que Anitta faz? Explica pro Jimmy Fallon (um dos apresentadores mais famosos da tv americana) que a "história da música" é sobre "Uma garota que tá curtindo a boa vida que o boy tá dando, mas por tempo determinado já que ela não sente nada por ele e só tá curtindo aquele momento já com data pra terminar". A Anitta usou da lógica de empodeiramento feminino que ela usa no Brasil (e que dá SUPER CERTO) mas que na América é confundido com OUTRO termo ainda pior que "Fake Love" para os americanos:Gold Digger ("Mulher Interesseira", numa tradução livre). Bola FORA! Lembra muito uma passagem famosíssima da Xuxa quando tentou emplacar carreira na América tb apresentando um programa em inglês."Solta a franga''(termo popular nas décadas de 1980/1990) no Brasil e que significava "Se liberta", "Se solta", teria de ser adaptado para o inglês, algo como "lose youself" ("se solta", ''se joga''). O que a equipe da Xuxa escolheu? "Drop a Chicken", LITERALEMENTE "solta o frango". Resultado? Ao invés das crianças pularem, gritarem, "soltar a franga", os coitadinhos começaram a procurar ao redor do cenário pelo... frango.


Mas a saga "Fake Love" não termina aí. Sentindo a pressão de estar na América, sentindo a pressão do Tempo de Mercado e Orçamentário, Anitta erra não somente ao escolher o Single com esse "approach" e erra ainda MAIS fora do clip da música. Insatisfeita com o resultado final - e as críticas a música, as entrevistas promo e ao clip! - Anitta pela primeira vez deixa de agir como a vencedora nq sempre foi e faz o q todo medíocre faz: apontar culpados. Nas Redes falou mal da Equipe de produção americana do clip (Como vc fala mal do "dono da festa" ainda dentro da festa?) frisando de forma rancorosa que só não saiu melhor pq não tinha sido ela a estar no controle criativo da coisa, deixando subentendido que a culpa era então... da gravadora. Anitta, a culpa SEMPRE é da gravadora. Nosso papel como artista contratado é lidar com a questão internamente sem envolver o público. É nesses momentos q o Mercado americano define os vencedores. Mas eis que Anitta ainda passaria pelo última e mais feroz prova da "Era Fake Love": O sucesso absoluto e instantâneo da versão brasileira (e que usa o termo inglês da forma correta!) da Influencer adolescente Melody. Até eu ouvi mais a versão que a original.


3º ERRO: Conheça BEM a língua ou cerque-se de NATIVOS que estejam dispostos a ajuda-lo na transição e adaptação de suas idéias para uma língua estrangeira. Erros interpretativos básicos podem levar para o ralo em poucos dias, MILHÕES de dólares em investimento.


Visivemente frustrada com o desempenho dos singles e principalmente com o American way de produção, de fazer negócios, Anitta opta por um tourzinho pela Europa, solta uma farpa aqui e outra ali contra o mercado americano nas Redes Sociais (Lembra do que falei lá em cima de que era cedo para criticar a empresa pra qual ela trabalha?) e passa o tempo

apresentando uma série de colaborações que são lançadas a toque de caixa, quase que simultaneamente, com artistas franceses e italianos de grande expressão local mas não internacional, deixando até os fãs sem entenderem direito o que seria material para o album de estreia na América ou não. Uma loucura! Para quem entende do Mercado estava CLARO que Anitta estava num pico de ansiedade absurdo, tateando aqui e ali, se perdendo. No meio disso aconteceu inclusive o lançamento - em novembro de 2021! - do Single em espanhol "Envolver" que, apesar de elogiado por parte da crítica (talvez pela melodia vender uma Anitta mais vulnerável, menos bossy), até março passado, parecia mais uma destinada ao "esquecimento";


Entendendo que o Relógio do Mercado corre beeeeem mais rápido que o Orçamentário, Anitta começa a intuir que a hora do "é agora ou nunca" tava chegando: Depois de ao menos 4 singles lançados e NENHUM hit, tendo data de um álbum inteiro pra anunciar ela simplesmente tinha que fazer alguma coisa! É quando Anitta anuncia a parceria (paga, CLARA com Max mago da música pop americana que assinou megassucessos da Britney Spears e da Katy Perry, por exemplo. Parecendo ter renovado suas energias, Anitta e seu staff trata então de "Boys Don't Cry" com pique de primeiro Single, como se Anitta nunca tivesse lançado "Mí Gusta", "Fake Love", "Envolver" ou "Girl From Rio". Com a promo dando pistas de um look Dark, gótico, não demorou para nós, conhecedores do POP, acharmos que teria no mínimo uns riffs de "Boys Don't Cry" da banda clássica dos anos 1980 - The Cure - e o Clipe com direito a participação do vocalista Robert Smith no final! Imagina que icônico? Mas o que veio foi um Single que parecia sobra de estúdio, um clipe que parecia um genérico de "HotANDCold" da Katy Perry (que já não era grande coisa) e uma Promo desesperada com Anitta conclamando os fãs a todo momento.


O Single tb não aconteceu na América.


Mas o album PRECISA sair. Tem contrato em jogo. Tem o Investimento de muito, MUITO dinheiro. Não existe a opção do album não sair. E não dava mais para esperar pela 6º tentativa de emplacar Single.


E foi quando a situação chegou a seu pico que no fim de Março, pra surpresa geral que "Envolver", lançada quase 4 meses antes e "esquecida" aparece entre as 10 mais tocadas do Chart Global do Spotify. Dias depois "Envolver" chega ao topo do mesmo Chart como a música mais tocada no Mundo! Não poderia existir melhor momento para FINALMENTE se lançar o album.


LANÇAMENTO BOICOITADO

Hoje, 13 de abril de 2022, 2 ou 3 semanas apenas após o feito com "Envolver" e um dia depois do lançamento mundial de "Versions Of Me"(Warner, 2022) - mais uma bola fora da Equipe e da cantora que escolheram uma capa de PÉSSIMO GOSTO, um título HÍPER pretensioso (se a América não conheceu nem 1 versão da Anitta pq estaria interessada em várias?) e PIOR, mais uma vez apostando de que a América já conhece ou deveria conhecer - estamos falando de "tudo", menos do lançamento, menos das 14 faixas. Aliás, não tem quase ninguém falando sobre isso. O motivo? A notícia de que o Spotify irá averiguar se teve ou não a ação de robôs e/ou métodos não ortodoxos para o sucesso de "Envolver".


Bem, eu não posso - e nem estou interessado em - afirmar se existiu fraudulência ou não no caso de "Envolver", o que NÃO DÁ é pra dizer q a Anitta inventou o jabá, isso não dá! MUITA, mas MUITA gente das décadas 1960/1970/1980 que hoje são "bandas clássicas", "artistas inesquecíveis" tiveram seus trabalhos alavancados pelo famoso JABÁ! Parem de hipocrisia! E outra, na América vale TUDO pra vencer, esse é o segredo do "american way of Life", vc pode TUDO para alcançar o sucesso: Desde que não seja pego, descoberto.


Agora, uma coisa eu posso AFIRMAR: como continuamos, como brasileiros, ODIANDO os brasileiros. Se não é a Seleção, existe uma torcida absurda pelo insucesso, como aconteceu com Carmem Miranda, Sonia Braga, Rodrigo Santoro, Sady & Júnior e agora Anitta. Se eu fosse Anitta, quando voltasse ao brasil, faria um album só de Funk e cuja a capa seria Anitta fantasiada de Carmem Miranda, cheia de tiro, sangrado, mas ainda de pé, armada e perigosa.


#anitta

#versionsofme

#entretenimento

#popmusic












27 visualizações0 comentário