• Caesar Moura

VALENTÕES DE PLAYGROUND

Na minha infância o universo masculino era bem simples, dividido em apenas 2 classes de meninos: Os "de rua" e os "de playground". Não é que os "de rua" fossem literalmente "meninos de rua" sem moradia ou coisa do gênero, mas meninos criados por famílias pobres recém-ingressas à Classe Média, que mantinham ainda laços culturais de suas "vidas regressas" - ainda tão recentes em suas memórias afetivas - e que por isso permitiam que seus filhos fossem para além de seus quintais e se socializassem (em partidas de futebol, vídeo-games, etc) com meninos não só da rua, mas do bairro onde residiam; Enquanto existia um outro grupo, tb de Classe Média, mas mais próximo da ascensão social tão cobiçada por essa classe, que nasciam e se criavam em condomínios, nos playgrounds. Grande parte do círculo vivência social dessas crianças se dá num mesmo espaço, isolado e pouco plural.


Natural um certa rivalidade entre os grupos: De um lado um dos grupos de meninos inveja a sensação de superioridade financeira que os condomínios inspiram, de outro o grupo de meninos "de playground" temem e invejam a idéia de independência e malandragem que o grupo "de rua" inspira. O resultado dessa competição - que nos persegue a vida inteira - é que muitas vezes os "meninos de condomínio" provocavam os meninos "de rua" de dentro da segurança de seus playgrounds: A ironia era que em algum momento eles precisariam sair de seus prédios e trafegar por áreas públicas comuns como a escola e a própria rua. Era nesse momento que vinha a revanche dos meninos "de rua": Nós sabíamos que aquele momento era inevitável. O fato é que muitas e muitas vezes os meninos de playground faziam a maluca, ou diziam em tom de súplica que nada daquilo tinha acontecido (as provocações, o deboche, os xingamentos) ou, quando essa tática não dava certo, imploravam por misericórdia.


Coisa que conseguiam. Às Vezes (Rs).


FOTO: DIVULGAÇÃO


Acompanhar a manipulação descarada da Rede Globo e diversos veículos de Imprensa (por essas e outras que há 10 anos está em ação o plano da galera do Vale do Silício de descredibiliza a Imprensa formal e institucional, não pq "trazem a vdd", mas pq "trazem a vdd q convém a um seleto grupo de bilionários) ao tratar a saída de Karol Conká, participante da edição 21 do Big Brother Brasil (BBB) e a com recorde de rejeição com quase 100% do voto de exclusão dos telespectadores me lembra essa relação entre Rua X Condomínio, gente pronta para lidar com as consequências de seus atos e outras prontas para escapar da responsabilidade.


A artista foi motivo de audiência elevada e polêmica desde da semana 01 do reality show. Protegendo-se atrás do discurso da "Mulher Preta Empoderada" (ou seja, se vc discordasse dela ou de suas versões da realidade, vc seria acusado de misoginia, machismo e racismo, como se não existisse nas "Minorias" falta de caráter, de ética, como se cada integrante desses grupos sociais fossem automaticamente absolvidos de suas faltas, erros, equívocos e ações por causa de sua Identidade) Karol destilou intolerância, narcisismo, violência (sempre sua primeira resposta à rejeição) e sadismo no programa, criando um ambiente tão tóxico que abalou até a convicção dos Patrocinadores e Anunciantes (os verdadeiros patrões de Boninho, diretor do programa) no show de maior sucesso da TV brasileira.


Não foi para menos: Perda vertiginosa de seguidores nas principais redes de Conká, queda de streaming de suas músicas no Spotify, cancelamento de contratos, suspensão de estreia de programa de TV e - o mais grave para uma pessoa pública hj - uma rejeição absurda da Opinião Pública. Até alguns dias atrás era não só permitido como encorajado a odiar Karol, odiar Karol publicamente (nas redes sociais, o novo "playground", claro!) era sinal de saúde mental, de que vc estava "do lado certo da História": Onde essas pessoas foram parar depois da saída de Karol do programa (articulada por Boninho q entendeu q a permanência dela lá significaria a insegurança constante de seus anunciantes)?


Longos e anormais comerciais entre o anúncio de sua expulsão do reality e o momento de sua saída; omissão dos números de votação; uma imprensa passa pano; uma Karol que parece anestesiada ao vivo nos programas da grade da Emissora; uso do discurso Identitário como o novo "deixa disso"; Tudo, TUDO para proteger a integridade física e mental da artista. O que acho certo.


Mas quem cuida da saúde do espectador submetido a esse circo dos horrores?


Ninguém.


Boninho pela primeira vez assumiu publicamente a tática do "morde e assopra" e tenta minimizar os estragos causados pela personalidade egocêntrica de Karol e da dele mesmo (que jamais poderia ter imagino um nível de rejeição q furasse a bolha dos Anunciantes e Patrocinadores): Boninho, a Imprensa que o segue e os raivosos de ocasião das Redes agem agora como os meninos do playground que, ao perceberem que seus insultos feitos do alto da proteção de seus condomínios foram longe demais tentam agora a TODO CUSTO ser amigos "da casa toda", minimizar os estragos.


Valentões de playground, sem a malandragem da rua.


O problema dessa estratégia é que num mundo tão polarizado - mundo esse alimentado pelo próprio Boninho - onde ou se Ama ou se Odeia, tentar nos tirar o direito a indignação (só pq seu experimento - feito com humanos - de casting e marketing deu tremendamente errado) depois de te atirado Karol às feras, é arrogante e irracional.


Não estou aqui de jeito nenhum defendendo o linchamento de Karol Conká, mas que ela assuma publicamente a responsabilidade de ter aceitado participar do reality com o conhecimento técnico (de auto-imagem, promoção, divulgação, edição) que um participante anônimo não tem e ainda assim ter mostrado tamanha crueldade no tratamento com gente.


"Ah, mas sabe-se lá o que ela passou como mulher preta...",


bem, adoraria viver num mundo onde meus clientes-contratantes, meus amigos, meus colegas de trabalho, minha família, meus namorados, os estranhos, os meu gatos, TODOS entendessem e perdoassem meus maus momentos por não saberem o que "eu passei como viado, mestiço, gordo e pobre", mas infelizmente não é assim para a maioria esmagadora de nós, seu patrão pouco se importa com o q vc passou em sua vida pessoa, mas sim interessado em sua capacidade de produção; estranhos te chamarão de "escroto" para sempre se te pegam num momento ruim e impaciente (tb não estão aí se vc está lidando com um gatilho naquele momento ou não), sim, pq até aqui não tive Boninho pra suavizar o impacto da onda na minha vida e sei q vc que me lê tb não teve.


No Brasil de Bolsonaro a necessidade de se ver a Justiça se dar onde quer que seja faz com que acabemos nos esquecendo que a Misericórdia é irmã mais velha - e sábia - da Justiça e de que Ela deveria prevalecer.


Mas não tente nos tirar a capacidade de nos Indignar.


Não nos cabe decidir ou infligir nossa idéia de justiça à Karol, isso é tirania, crueldade, arrogância, prepotência e, a julgar pelo o q mostrou no programa, essas são características da própria Karol, não minha ou sua. Mas de nos sentirmos indignados, irritados e decepcionados com Karol, ah, isso nos temos e não vai ser seu "Shiiii" que vai mudar isso.



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