• Caesar Moura

VIADO VAI MESMO PARA O INFERNO: E QUE DIVERTIDO!

Senti pela primeira vez quando assisti ao clip de “Like A Prayer” da Madonna. Eu entrava na adolescência e como todo adolescente eu procurava por algo inovador, ousado, quase anárquico. Na época eu não entendia a dimensão do q eu assistia (muitos anos depois fui entender as cruzes em chamas - uma menção a forma como participantes da Klan Klux - e de o clipe não falava de “uma mulher tão sensual a ponto de fazer um santo negro pecar” como todos da minha idade achavam na época, mas sim sobre o silêncio dos brancos americanos diante do racismo bárbaro que desde sempre impera na América (de Trump ou dos Kennedy ou até mesmo na de Obama).


Já mais velho e fã de pop assumido, senti algo parecido assistindo “I’m A Slave 4 U” (2001), primeiro single do terceiro álbum de estúdio da Britney Spears. Voz sussurrante, corpos suados, coreografia sensual: Britney FINALMENTE se mostrava pronta para receber a coroa de Rainha do Pop tirada da cabeça de Madonna. Mas eis q o restante do álbum (incluindo a famigerada “I’m Not A Girl Not Yet A Woman”) terminariam por mostrar o lugar que ainda deixariam Britney por anos. Décadas.


No ano seguinte Christina Aguilera me mata do coração lançando “Dirrrty” (2002, e q faz “I’m Slave 4 U” parecer anime pra criança). Mais uma vez eu senti, senti q estava diante de algo importante para história do Pop Mundial. “Strippe" é até hj o melhor trabalho de Christina Aguilera q, no maior clima Cindy Lauper, colocou o hino “Beautiful” (segundo single do álbum) na história: Não dá pra falar da musica pop feita no início do Século XXI sem falar dessa música de Aguilera.


Agora, 19 anos depois, volto a sentir esse formigamento adolescente quando diante de algo “importante” com o novo clip de Lil Nas X : “Montero: Call Me By Your Name” (2021).

Foto: Divulgação



Lil Nas X é um jovem rapper americano que viralizou em 2019 a partir do Tik Tok com o Single “Old Town Road”, não a toa uma das músicas mais tocadas daquele ano e que garantiu a Lil Nas X prêmios Grammy, o mais importante da indústria fonográfica.


Apadrinhado pelo pai da estrela Miley Cyrus, Lil Nas X ficou conhecido tb por, ainda em 2019, ter se assumido publicamente gay. Ele não foi o primeiro rapper a fazer isso numa Comunidade Artística mundialmente conhecida pelas letras violentas, machistas, sexistas e homofóbicas, mas certamente é o primeiro a elevar o nível do jogo: Lil Nas X fez história esse mês.


No clip de “Call Me By Your Name” Lil Nas X é o primeiro gay da Humanidade. Deitado diante da Árvore da Vida ele tb é seduzido pela serpente e julgado por anjos e caídos. Inocentado dos pecados, vai para o céu. Até q no caminho de subida ele vê a possibilidade de descer aos infernos. E é o q faz. Num acena q já se tornou antológica, ele desce fazendo poledance, seduz o Diabo com as famosas lap dances feitas por mulheres strippers americanas e por fim rouba-lhe a coroa de chifres e vira o Rei/Rainha do Inferno.

Pode parecer puramente escandaloso e pueril para os menos atentos, mas Lil Nas X e sua Equipe fazem política e a do tipo subversiva.


Primeiro Lil Nas X “rouba” o lugar de Eva na mitologia católica do “Começo do Mundo”; Depois ele se safa do julgamento dizendo q sim, os gays tb vão para o céu ao contrário do q os próprios católicos dizem ATÉ HJ; Aí ele esfrega na cara da sociedade a ousadia: Ele então prefere ir para o Inferno, isso mesmo, aquele lugar malvado para onde dizem q os gays são punidos? Então, ele renega os céus e por vontade própria escolhe arder nas chama do inferno. Se isso não é subversivo eu não sei mais o que é.


O clip de “Call Me By Your Name” é quase uma continuação de “Like A Prayer” onde ao invés de esperar pela ajuda de uma mulher branca o “santo negro” tomasse as rédeas do próprio destino e preferisse o inferno ao céu, como se dissesse aos racistas/homofóbicos: Se é o inferno q nos é reservado, q tomemos conta dele e façamos do lugar nossa “casa”.

Nem Rihanna, nem Beyoncé, Nem Billie Eilish, Nem Cardi B: O Pop de primeira grandeza, aquele q não tem medo da controvérsia, que subverte o Sistema (nem q por apenas 3 minutos de clip) foi feito por um rapper preto e gay. E isso é muito importante.


Pena ver a “polêmica” paralela (sobre a versão de um Nike com gotas de sangue humano na sola) e comercial, que NADA tem de progressista, apenas Capitalismo barato e cafona, esteja roubando a cena. O que é infelizmente normal num mundo onde QUALQUER tentativa de revolução é transformada - e reduzida, rebaixada - numa propaganda de refrigerantes.


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